Mesmo sem grandes surpresas, “Da 5 Bloods” é um exemplo de representatividade necessária dentro do cinema

Engana-se quem acha que Spike Lee ficaria em silencio diante do que continua acontecendo. Em um clima como se dissesse “eu venho avisando já faz tempo” ele lançou um curta metragem seis dias depois da morte de George Floyd. “3 Brothers” mistura ficção e realidade ao mostrar em menos de dois  minutos a morte de três negros asfixiados pela policia. Eric Gardner, morto em 2015, George Floyd em 2020 e Radio Raheem personagem de “faça a coisa certa” seu filme do longínquo ano de 1989.

Completando seu manifesto, ainda na efervescência da pauta anti racismo, ele lançou no dia 12 de junho seu mais novo longa, “Da 5 Bloods”. Ambientado no Vietnã pós guerra, o filme narra a volta de um grupo de ex soldados em busca de ouro e os restos mortais do seu antigo líder. Um roteiro que, se não fosse por Spike, seria só mais um filme de guerra. E que na verdade quase foi, tendo em vista que o diretor não era a primeira opção do projeto. O titular era Oliver Stone, ganhador de dois Oscars por filmes sobre a guerra.

Com sua desistência em 2016, Spike tomou as rédeas da produção e fez a mudança que tirou o filme da prateleira das histórias repetidas. Sob a sua direção, os quatro soldados, até então descritos como brancos, seriam negros. E o motivo pelo qual eles estavam em uma caça ao tesouro era justificável pela maneira como eram tratados pelo seu país. Tudo com o selo Spike Lee de fazer cinema e ativismo social.

O curta metragem “3 Brothers” do diretor Spike Lee lançado no final de maio

Um novo super herói

Nascido em Atlanta, mas formado em cinema em Nova York, Spike trouxe a linguagem urbana do Brooklin em seus filmes. A partir de “Faça a coisa certa”, o qual lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar, ele acrescentou o ativismo social. É o primeiro de seus filmes a conter trechos de discursos históricos de defensores dos direitos civis negros. E, ao longo da sua filmografia esta se tornaria uma de suas marcas registrada, e em “Da 5 Bloods” não seria diferente.

A diferença de seu último filme está em dois elementos obtidos apenas depois da mudança no roteiro feita por Spike. O primeiro é o recorte histórico. Desde o seu término em 1975, a guerra do Vietnã já foi mostrada em diversas obras, nenhuma delas aborda o que o diretor abordou: um pelotão negro que lutava na guerra quando Martin Luther King fora assassinado nos Estados Unidos.  O que impede a revolta do grupo, intitulado “Blood”, ao saber da noticia é exatamente o segundo elemento do filme: o comandante Stormin Norman. 

Interpretado por Chadwick Boseman, o Pantera Negra, o personagem é descrito pelos companheiros como o melhor soldado que já existiu. Um guerrilheiro assumido e um pacifista em potencial. E, através desta mistura, Spike cria um novo herói de guerra, capaz de pular de helicópteros em queda ao mesmo tempo em que atira em inimigos. Uma máquina de guerra, quase idêntica ao Rambo de Stallone, a única diferença são os valores por ele apresentados.

É do próprio comandante a idéia de enterrar o ouro encontrado após um combate. Em suas palavras aquele grupo merecia sair por cima depois de tudo que foi submetido. E neste clima de recompensa, a caça ao tesouro ganhe uma justificativa, embora tenha um desfecho um tanto quanto questionável. Mas se nos acostumamos com seqüência intermináveis de filmes de Chuck Norris, os clichês inevitáveis de “Da 5 bloods” acabam passando sem muito incomodo.

Filme “Da 5 Bloods” que no Brasil ganhou o nome de “Destacamento Blood” lançado pela Netflix

A maneira Spike Lee de combater o racismo

Com a parte da aventura montada, Spike aproveita para abordar questões como o apoio de negros ao governo Trump. E debochar da gentrificação do Vietnã, e suas franquias do KFC e Mcdonalds. O filme coincide com o momento de discussão antirracista mundial, inclusive mostrando uma reunião do movimento Black Lives Matter. Ao mesmo tempo mostra a importância da criação de um personagem negro como Stormin Norman dentro de um contexto de desigualdade como foi a guerra para os negros americanos.

E por se tratar de Spike, termina com mais um discurso de Martin Luther King. Embora não tenham sido contemporâneos, estudaram no mesmo local, a Morehouse College, antes do diretor se mudar para Nova Iorque. Seus filmes comprovam que o reverendo assassinado em 1968 tinha razão. Em sua última noite, King disse que não temia mais a morte, pois sabia que outras pessoas levariam adiante a sua luta. Mesmo que com maneiras discursivas diferentes, tendo em vista que Spike não herdou o talento do reverendo para discursar para uma platéia.

Em 2015 ao receber um Oscar honorário, Spike fez um discurso confuso de quase 18 minutos, lendo três páginas escritas por ele. Quatro anos depois, em 2019, a cena se repetiu ao receber das mãos de Samuel L. Jackson, que também estudou na Morehouse e que não conseguiu conter a empolgação ao anunciar o prêmio de melhor roteiro adaptado. Após os abraços, mais uma vez ele sacou um papel e no limite do tempo disponível leu apenas uma página que havia escrito.  

Ele denunciou abusos cometidos contra a comunidade negra e encerrou dizendo “Vamos fazer a coisa certa” fazendo alusão ao seu filme. Todos os presentes sabiam que seu melhor microfone são seus filmes que a mais de 30 anos denunciam o racismo. Esta é a vocação e especialidade de Spike Lee que no dia seguinte a premiação do Oscar embarcou para a Tailândia para dar inicio as filmagens do projeto que havia assumido no lugar de Oliver Stone. Era hora de dar seqüência a luta.

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