“Da 5 Bloods” é um novo olhar em meio a clichês da Guerra do Vietnã

Spike Lee, Isiah Whitlock Jr, Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clark Peters e Norm Lewis no set de filmagem de “Da 5 Bloods”

Frankie Gaye trabalhava em uma rádio do Vietnã nos anos 1960. De lá, escreveu para o irmão expressando insatisfação e nojo da guerra que presenciava. As cartas inspiraram o irmão, Marvin Gaye, a compor e lançar em 1971 o álbum “Whats Going On” que trata sobre as mazelas do conflito que é uma chaga na história dos Estados Unidos. E os versos cantados na obra dão o tom em boa parte dos 156 minutos de duração de “Da 5 Bloods”, novo longa de Spike Lee.

Lançado no dia 12 de junho de 2020, o filme da Netflix, que no Brasil ganhou o nome de “Destacamento Blood”, transpõe o movimento “Black Lives Matters” até o Vietnã através da história de quatro veteranos. Eles estão de volta, 40 anos depois, em busca de um tesouro enterrado e os restos mortais do antigo e aclamado líder do grupo. Um roteiro que originalmente estava fadado a ser mais do mesmo.

Originalmente Oliver Stone, diretor dos premiados “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho” estava a frente do projeto. Ele desistiu em 2016, e foi só então que Spike Lee tomou as rédeas da produção, fazendo as mudanças que tiraram o filme da prateleira das histórias repetidas. Nas mãos de dele, os Bloods seriam negros ao invés de brancos e a justificativa para a caça ao tesouro era a maneira como os negros eram tratados nos Estados Unidos. Com isso “Da 5 Bloods” traz uma visão inédita entre tantas obras sobre a Guerra do Vietnã.

Os Bloods

Filme “Da 5 Bloods” que no Brasil ganhou o nome de “Destacamento Blood” foi lançado pela Netflix no dia 12 de junho

Quarenta anos depois, Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr) e Eddie (Norm Lewis) voltam ao sudoeste da Ásia. Cada um dos quatro lida com o pós guerra de uma forma, mas são unanimes na devoção ao antigo líder Stormin Norman (Chadwick Boseman), morto em combate e descrito por eles como “nosso Malcom e o nosso Martin”.

Norman é um guerrilheiro assumido e um pacifista em potencial. É dele a ideia de enterrar um baú com ouro encontrado após um combate com vietnamitas, e é quem impede que uma revolta aconteça depois que os Bloods ouvem pelo rádio a notícia de que Martin Luther King havia sido assassinado nos Estados Unidos. Dessa mistura surge a aura do líder e herói do filme que pula de helicópteros e faz discursos profundos sobre a guerra.

Contudo, o grande personagem de “Da 5 Bloods” é Paul, cuja sanidade mental é o motor e a moral da história. Ao voltar ao Vietnã, ele é surpreendido pelo filho David (Jonathan Majors), e conforme se embrenha no mato usando um boné vermelho “Make America Great Again” teme cada vez mais encontrar o passado.

O filme vai e volta no tempo, rememorando conflitos da guerra, mas sem efeitos especiais. Os quatro atores como estão hoje atuam ao lado de Boseman, mais novo, dando a sensação de frescor das lembranças. E com a aventura montada, “Da 5 Bloods” mescla comédia, western e drama, debochando ao longo da trama o apoio de negros ao governo Trump e a gentrificação do Vietnã, mas deslizando em alguns clichês comuns.

Ineditismo e alguns clichês

Cena do filme “Apocalypse Now” embalada por “Ryde the Valkyries” de Richard Wagner

Dizem que todas as guerras são travadas duas vezes, a primeira vez no campo de batalha, a segunda vez na memória. Desde o seu término em 1975, a guerra do Vietnã já foi mostrada em obras como a comédia “Bom dia Vietnã”, passando pela Disney com “Operação Dumbo”, até os filmes de ação como o Rambo de Stallone e “Bradoock” de Chuck Norris. Nenhum chegou perto de traduzir a loucura da guerra como “Apocalypse Now” de Francis Ford Coppola.

Não a toa, Spike Lee faz algumas referências em “Da 5 Bloods” a obra prima de Coppola: a cena do barco ao som de “The Ryde of Valkyries“; o corpo estendido no chão pronunciando “madness”; a transformação de Paul e o seu coração das trevas. Até mesmo a festa do inicio do filme tem o tema de Apocalypse Now. Mas o trunfo do diretor para se diferenciar do outros filmes é focar de forma inédita no fato de que um terço dos combatentes norte-americanos no Vietnã eram negros, embora formassem não mais do que 11% da população dos Estados Unidos.

Apesar do ineditismo, “Da 5 Bloods” desliza no clichê de desmerecer as consequências da guerra do ponto de vista oriental. Apesar dos 58.000 norte-americanos e três milhões de vietnamitas mortos, a guerra também foi travada internamente no Laos e no Camboja, deixando mais centenas de milhares civis mortos. Mas tudo bem, entre tantas obras já lançadas sobre o conflito e que nada acrescentam, os problemas do filme de Spike Lee são compensados pelo ativismo que ele levanta.

A maneira Spike Lee de fazer cinema

Trailer do filme “Faça a Coisa Certa” lançado em 1989 e que rendeu a Spike Lee a primeira indicação ao Oscar de melhor direção

Antes de mais nada Spike Lee é uma celebridade, conhecido pela irreverência na beira da quadra do Madison Square Garden nos jogos do New York Knicks. Nos anos 1990 dirigiu e estrelou os comerciais da Nike com Michael Jordan e em 2020 se tornou o primeiro negro presidente do júri do festival de cinema de Cannes. Nascido em Atlanta, mas formado em cinema em Nova York, Spike tem como marca registrada o ativismo social na forma de fazer cinema.

“Faça a Coisa Certa” de 1989 é um bom exemplo disso. O filme rendeu ao diretor a primeira indicação ao Oscar e tem no desfecho do personagem Radio Raheem um pressagio sobre brutalidade da policia. Este fato foi relembrado por Spike recentemente, seis dias depois da morte de George Floyd, com o curta metragem “Three Brothers”, que mistura ficção e realidade. Na história três jovens negros são mortos asfixiados por policiais, ao final fica o questionamento, “a história vai continuar se repetindo?”.

“Da 5 Bloods” começa e termina com um discurso de Martin Luther King, intitulado Beyond Vietnam, em que brada que “os negros norte-americanos foram enviados para garantir liberdades no sudeste da Ásia que não haviam encontrado no sudoeste da Geórgia e no leste do Harlem”. O diretor e o reverendo, embora não tenham sido contemporâneos, estudaram no mesmo local, a Morehouse College, em Atlanta.

Mas nem de perto pode-se dizer que Spike herdou o talento de King para discursar em público. Os exemplos são o agradecimento de quase 18 minutos por um Oscar honorário em 2015, e quatro anos depois em 2019, quando a cena se repetiu ao ganhar na categoria de melhor roteiro adaptado por “Infiltrado na Klã”. O prêmio foi entregue pelo colega de Morehouse, Samuel L. Jackson, que não conseguiu conter a empolgação. No limite do tempo, Spike Lee sacou um papel e enumerou abusos cometidos contra a comunidade negra.

Ele encerrou dizendo “vamos fazer a coisa certa” em alusão ao seu filme que completava 30 anos. Todos os presentes, assim como quem conhece o trabalho do diretor, sabe que seu melhor microfone são seus filmes. Neles ele questiona modelos e coloca luz onde não é comum Hollywood colocar. Assim é “Da 5 Bloods”, filme que no dia seguinte a ganhar o Oscar em 2019, Spike embarcaria para Tailândia para dar inicio as filmagens.

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