“The Last Dance” e o narcisismo de Michael Jordan

A série The Last Dance tem como protagonista Michael Jordan em sua última temporada com o Chicago Bulls

“Eu só quero que a franquia do Chicago Bulls seja respeitada como os Lakers e os Celtics” disse Michael Jordan a um repórter em 1984, logo depois de ser selecionado no draft da NBA. Se esse fosse seu único desejo, seria fácil dizer que as expectativas foram superadas, e muito. O time de Chicago não só foi a maior referência popular do basquete mundial na década de 1990, como até hoje os nomes da equipe e do jogador andam juntos como o “Santos de Pelé”.

Os feitos e desafios que levaram o jovem jogador ao topo da NBA e o universo que ele criou neste meio tempo são apresentados na série documental “The Last Dance” (“Arremesso Final” no Brasil), uma coprodução da Netflix com a ESPN films, do já premiado OJ Made in America. Dirigida por Jason Hehir, e dividia em dez episódios, a série tem como fio condutor a última temporada de Jordan com o Chicago Bulls.

Prevista inicialmente para junho deste ano, “The Last Dance” foi antecipada e estreou mundialmente no dia 19 de abril, rapidamente se tornando o principal assunto esportivo em meio a pandemia. Não tinha como ser diferente, tudo funciona na série: a história contada em formato de jornada do herói; os personagens que enaltecem o protagonista enquanto orbitam ao redor dele; e, principalmente, a forte carga nostálgica que atinge o espectador.

Tudo parece milimétricamente calculado. A começar pela cena de abertura com Jordan sozinho, bebendo whisky e fumando charuto, enquanto reflete na sala de casa de frente para o mar, até os depoimentos prestados que reiteram a cada episódio a obsessão de um narcisista. “The Last Dance” é um cartão de visitas de alguém preocupado em lustrar um legado que parecia estar começando a ficar empoeirado.

A jornada do herói

Trailler da série “The Last Dance” que em dez episódios retrata a carreira de Michael Jordan.

Em paralelo a última dança de Jordan com Bulls na temporada 1997-98 da NBA, “The Last Dance” retrata a carreira vitoriosa do jogador com uma linha do tempo que avança e retrocede ao longo de cada episódio. Em 15 temporadas, Jordan conquistou seis títulos em quadra e lançou o basquete na estratosfera da popularidade fora dela. E tudo que os produtores fazem na série é dar o tom mais homérico possível a tudo isso.

A narrativa segue a formula da jornada do herói, utilizada aos montes pelas produções hollywoodianas, mostrando Michael Jordan como uma jovem promessa em busca do trono da liga, selecionado por um time desconhecido até então. Junto na aventura estão os coadjuvantes: Scottie Pippen, fiel escudeiro e negligenciado pela direção. Dennis Rodman, o rebelde dentro e fora de quadra. E Phill Jackson, o técnico e gerenciador dos conflitos do time.

Os vilões também existem. Jerry Krause, gerente geral dos Bulls, é o principal deles e carrega consigo a ideia de reformular o Chicago Bulls. É dele o aviso no inicio da temporada 1997-98 de que os contratos de Phill Jackson e de jogadores como Pippen não seriam renovados. Em quadra, os problemas de Jordan surgem a cada episódio com os desafiantes ao trono: dos bad boys do Detroit Pistons até o Utah Jazz de John Stockton e Karl Malone.

A cada episódio um novo problema se apresenta como ameaça. O assédio da mídia, as reclamações dos companheiros, o vício de Jordan em jogos e apostas e a decisão do jogador de ir jogar Beisebol: tudo é costurado com a apresentação de um super herói que precisa se cercar de pessoas confiáveis. E a cada episódio a série oferece através da sua narrativa um novo motivo para o espectador querer fazer parte daquele universo.

Buffet de nostalgia

Cêrimonia de apresentação dos jogadores do Cicago Bulls ao som de “Sirus” no jogo 6 das finais da NBA em 1997

No momento em que a Covid-19 deixa o futuro nebuloso, “The Last Dance” nos relembra o passado. Mais precisamente os anos 1990 e o ápice comercial de Michael Jordan com os comerciais gravados com Spike Lee, os tênis Air Jordan, e claro, o filme Space Jam. Entre as lembranças da época temos os ternos que mais parecem caixotes e celebridades tietes de Jordan como Jerry Seinfeld e um jovem Leonardo Dicaprio.

Tudo funciona para que o espectador responda com um “eu me lembro de ter/ver tudo isso”. Uma jogada interessante, que embarca na onda da discussão de que “a NBA já não é mais como antigamente”. Somada a nostalgia está à trilha sonora dominada pelo rap e hip-hop que se consolidou na mesma época com músicas de Notorious BIG, Jay Z e Outkast. Além da clássica Sirus, do The Alan Parsons Project, tema oficial da entrada em quadra do Chicago Bulls.

Em determinado momento você pode se pegar perguntando se aquilo é realmente um documentário ou apenas um anúncio extremamente do quão maravilhoso um atleta pode ser? Acontece que Jordan tem o talento único na vida e o desejo de viver essa personalidade em sua expressão máxima. Logo, não há restrições, nem limites, desde que você continue vencendo. Como você esperava que o próprio Jordan se comportasse na frente da câmera?

Mas até isso funciona. As partes em que ele nos conta coisas são as melhores partes. O herói deste filme é um gênio esportivo, mas também é um narrador não confiável e muito preocupado com a própria imagem. O resultado é uma série que registrou uma média de seis milhões de espectadores nos seis primeiros episódios lançados e que aguardam para se servir a cada segunda-feira no buffet de nostalgia que é “The Last Dance”.

Marketing pessoal

Entrevista de Michael Jordan para o canal ESPN em 1998 seu último ano com o time de Chicago

Michael Jordan aparentemente tinha tudo. Ele derrubou todos os inimigos que cruzaram seu caminho dentro da quadra. Bateu recordes individuais e coletivos, além de ter se tornado u mega empresário de sucesso. Então por que depois de todos esses anos alguém que raramente dá entrevistas participaria de uma longa série documental? Fácil, ele estava preocupado com o próprio legado ante o surgimento de um novo fenômeno do basquete: Lebron James.

Em uma entrevista ao New York Times um dos produtores da série, Mike Tollin, disse que o sinal verde de Jordan para o lançamento do documentário veio no mesmo dia em que James e o Cleveland Cavaliers estavam comemorando nas ruas a vitória da temporada 2015-2016 da NBA. Era o terceiro título de Lebron, que vem quebrando recordes de Jordan nos últimos anos. Por isso, era hora de agir e Jordan tratou de administrar sua imagem nos mínimos detalhes para que a mensagem que ele queria fosse transmitida.

“The Last Dance” é um produto feito para a Jordanmania, que se aproveita de uma história extremamente vencedora, e contada por alguém que somente liga a sua marca aquilo que o beneficie pessoalmente. Não a toa, a produtora de Michael Jordan, Jump 23, é parceira do projeto, e muitas das interações que vemos entre os personagens da série trazem a imagem que os ex jogador cultivou para si mesmo: competitivo e disposto a vencer a todo custo.

Obviamente, as vitórias de Jordan se destacam nos episódios ante seu comportamento. Mas essa é a primeira vez que o vemos falar sobre o assunto de uma maneira aberta, embora sem contestação, enquanto ele bebe whisky e fuma charuto na sala de casa. Mesmo que existam contradições ao longo da narrativa e nenhuma palavra sobre o retorno de MJ para os Wizards no inicio dos anos 2000, quem se importa? A história sempre foi contada pelos vencedores.

Se o objetivo era servir de um cartão de visitas do jogador para uma nova geração de fãs de basquete, o tiro foi certeiro. A série reúne os elementos necessários para o sucesso: história roteiro e personagens, além de ser de fácil acesso e que prende o espectador pela forma que é contada. Ela serve sim como argumento na eterna discussão sobre quem é o melhor de todos os tempos. Aliás, podemos discutir tudo, menos se vale a pena assistir “The Last Dance”.

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