O 39º álbum e os quase 60 anos de carreira de Bob Dylan

No dia 19 de junho Bob Dylan lança “Rough and Rowdy Way”, trigésimo nono disco da carreira e o primeiro de inéditas em oito anos. Três das dez novas músicas já foram lançadas: “Murder Most of Foul” de quase 17 minutos e 1.376 palavras diferentes; “I Contain multitudes” que trata das diferentes personalidades de uma mesma pessoa; e “False Prophet” onde o cantor refuta o título de Messias dizendo apenas “saber o que sabe”.

Seja lá o que for isso, ao longo dos quase 60 anos de carreira de Bob Dylan, o mundo for servido deste conhecimento através de música, poesia, literatura ou outros meios, garantindo uma onipresença cultural para o único ser humano na história a ganhar o Oscar, Grammy, Pullitzer e Nobel. Desde fevereiro deste ano, por exemplo, seria possível encontrar suas músicas em um espetáculo da Broadway. Mas se chegar é fácil, difícil é definir quem ele é.

Isso porque Bob Dylan sequer existe. Tudo não passa de um nome artístico de Robert Allen Zimmerman, nascido em 1941 em Duluth nos Estados Unidos, e adotado quando ainda estava na faculdade e antes dele se mudar para Nova York em 1961. Ao longo da década que marcou o nascimento do artista, a fama traria o primeiro rótulo de “cantor de músicas de protesto” graças a músicas como “The times they are a-changing”, “Blowin The Wind” e “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”. Mas isso não duraria muito.

Protestante e Judas

Vídeo da música murder Most of Foul

Os anos 1960 continuam no imaginário de Bob Dylan a ponto de “Murder Most Foul“, música que fecha o novo disco, ser quase um podcast sobre a época, tratando desde o assassinato do ex-presidente dos Estados Unidos John Kennedy, passando pelo inicio da carreira dos Beatles e o festival de Woodstock. Ao total, na primeira década da carreira, Dylan laçou nove discos. Mas tudo começou nas cafeteiras do Greenwich Village.

Após se consolidar no reduto hispter de Nova York, ele seria retratado em setembro de 1961 pelo New York Times como “a nova cara da musica folk”. E não demoraria muito para o artista passar a ser taxado como “a voz que representa a promessa da contracultura nos anos 1960”. Nada a contragosto de Dylan, suas composições davam razão para a rotulação, e ele usufruiria dessa imagem de protestante até a metade da década.

Na segunda metade, contrariando seus fãs que o acusariam de traição, ele migrou para um som mais elétrico com músicas como “Maggie’s Farm”, “Like a Rolling Stone” e “Leopard-skin Pill-box Hat”. “O cara que obrigou o Folk a ir pra cama com o Rock” diriam sobre a mudança. Mas o fato é que com as guitarras plugadas no amplificador, Bob Dylan chegou ao estrelato mundial em meio a beatlemania, sem muita paciência para lidar com o que isso significava.

Disposto a driblar as hordas de fãs, especula-se que Dylan teria inventado um acidente de moto em 1966 para sair de cena. Forjado ou não (nenhuma ambulância foi chamada ao local e o cantor não foi hospitalizado), foi o pretexto para ficar fora dos palcos por oito anos, e ter uma espécie de liberdade criativa. O ressurgimento viria na primeira metade dos anos 1970, década de novas faces e mudanças.

Ator e cristão

Clipe da música “I Contain Multitudes” uma das três músicas já disponibilizadas do novo álbum

Em “I contain multitudes”, primeira faixa de “Rough and Rowdy Way”, Dylan parece falar sobre as varias personalidades que possui: “sou como Anne Frank, Indiana Jones e os Rolling Stones. Gosto de fast food e carros velozes. Eu não tenho desculpas a pedir. Eu contenho multidões”. Quando reapareceu ao público em 1974 a faceta apresentada fora a de ator coadjuvante no filme Pat Garrett & Billy the Kid.

Para o filme, o cantor compôs “Knockin on Heavens Door” uma de suas músicas mais regravadas. No ano seguinte lançou seu disco de maior sucesso comercial “Blood On Tracks”, e em 1976 “Desire” onde encarna a personalidade de um cronista social em músicas como “Hurricane” e “Isis”. Esta fase é retratada no documentário de Martin Scorsese, sobre a turnê “Rolling Thunder Revue”, lançado no ano passado.

A turnê antecedeu mais um desparecimento de Dylan na névoa do abuso de drogas. O novo ressurgimento, já no final da década, traria a mudança mais radical da carreira. No álbum “Slow Train Coming” de 1979, o cantor manifestava abertamente sua conversão ao cristianismo dizendo ter encontrado Jesus, mesmo sendo de origem judaica. Mais uma vez os fãs jogariam pedras no artista que parecia não se importar. As músicas gospel atingiriam um novo público nos três álbuns lançados durante a fase cristã.

Ela terminaria em 1984, com o lançamento do álbum “Infidels”, e a presença reclusa de Dylan atravessaria os anos 19080. E como ninguém se espantava com mais nada, não houve grandes surpresas quando ele resolveu participar da canção “We Are The World” ou formar uma banda com George Harrison e Tom Petty. Essa postura seguiria para a década seguinte mas não afetaria em nada as composições, as quais lançadas no final dos anos 1990 são celebradas por alguns como as melhores da carreira de Bob Dylan.

Os prêmios e o falso profeta

Clipe da música “False Prophet” do disco ““Rough and Rowdy Way” com lançamento marcado para o dia 19 de junho

O disco de 1997 “Time out of mind” deu a Dylan mais um Grammy (são 12 no total da carreira), dessa vez na categoria de melhor álbum de Folk contemporâneo. Três anos depois seria a vez de ganhar o Oscar de canção original com a música “Things have Changed” do filme “Garotos incríveis”. O cinema tentaria dar uma ideia da multiplicidade das facetas do cantor quando em 2007 seis atores diferentes interpretaram o mesmo personagem em seis momentos distintos no filme “Não estou lá”.

Os prêmios continuariam chegando em 2008 com o Pullitzer pelo impacto das letras do cantor na música popular. O último disco de inéditas até então foi “Tempest” de 2012, mas de lá pra cá ele gravou musicas de natal, covers de Frank Sinatra, e causou um alvoroço no meio literário ao vencer o Premio Nobel de literatura em 2016. Sempre indo na contramão do esperado, Dylan não compareceu a cerimônia de entrega fazendo apenas uma manifestação dias depois.

Tudo que lhe é atribuído é negado, como em um jogo de espelhos. Mais ou menos como responde Eduardo Bueno neste vídeo. Embora a carreira de Dylan tenha diversos pontos de entrada e tenha atingido um publico ainda mais diversificado ao longo destes quase 60 anos, nada pode ser afirmado com certeza sobre o que de fato se passa na cabeça pensante de Robert Allen Zimmerman.

Nas vésperas do lançamento de “Rough and Rowdy Way”, ele instiga as curiosidades alheias a descobrirem quais caminhos ainda não foram desbravados, se é que isso é possível. E a resposta para qualquer pergunta vem sempre em formato de música, onde Bob Dylan segue simplista e negando qualquer que seja o rótulo atribuído, seja o de salvador da pátria, judas ou clarividente. “Eu não sou um falso profeta, eu apenas sei o que eu sei” responde Dylan, sem nunca ter precisado explicar como.  

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