O trigésimo nono álbum de Bob Dylan e seu problema com rótulos

Todos chegam a Bob Dylan de alguma forma. Música, poesia, literatura o outros meios. Conhecido principalmente por suas composições, Dylan lançará no dia 19 de junho seu trigésimo nono disco. Além disso, ele é o único ser humano a ganhar os prêmios Oscar, Grammy, Pullitzer e Nobel. Desde fevereiro deste ano, por exemplo, seria possível encontrar suas músicas em um espetáculo da Broadway. O que conclui que: chegar a ele é fácil, difícil é definir quem ele é.  

Isso porque Bob Dylan sequer existe. Tudo não passa de um nome artístico de Robert Allen Zimmerman, nascido em Duluth nos Estados Unidos. Robert adotou o pseudônimo ainda na faculdade e antes de se mudar para Nova York em 1961. Lá, ele passou a se apresentar em cafeterias no bairro Greenwich Village. Em setembro do mesmo ano era apontado pelo New York Times como “a nova cara da musica folk”.

Muita coisa aconteceu desde então. Da transição para instrumentos elétricos, passando por um acidente de moto e a conversão para o cristianismo. Hoje, prestes a completar 79 anos de vida e 60 de carreira, Dylan prepara o terreno para “Rough and Rowdy Way”, o primeiro álbum de inéditas em oito anos. Nas musicas lançadas durante a quarentena, ele olha para o passado, parece falar de si mesmo e segue negando os rótulos atribuídos.

Anos 60, guitarras elétricas e um acidente de moto

O novo disco contará com dez musicas, três delas já disponibilizadas. A primeira, lançada em março deste ano, é “Murder Most Foul”. A música, que encerrará o novo album, possui elementos para ser um podcast: quase dezessete minutos e 1.376 palavras diferentes. A letra tem como pano de fundo o assassinato de John Kennedy em 1963 e outros eventos da década. Na carreira de Dylan, os anos 60 foram o espaço para nove discos e um acidente de moto.

Na primeira metade da década, ele se consolidou com o rótulo de cantor de musicas de protesto com “The times they are a-changing”, “Blowin The Wind” e “The Girl from the North Country”. Esta dá nome à peça citada da Broadway. Na segunda metade, contrariando seus fãs que o acusariam de traição, ele migrou para um som mais elétrico com “Maggie’s Farm”, “Like a Rolling Stone” e “Leopard-skin Pill-box Hat”. O número de shows aumentou e ele aproveitou um acidente para se esquivar da pressão.

Em 1966, Dylan sofreu um acidente de moto em Nova York. O fato é cercado de mistério, posto que nenhuma ambulância foi chamada ao local e o cantor nunca foi hospitalizado. Mesmo assim,  ele ficou oito anos sem fazer turnê, mas não deixou de compor.  Antes do fim da década, ele lançou “Nashville Skyline” com influência na música country uma parceria com Johnny Cash. Mais uma vez ele ia contra o que críticos e parte dos novos fãs esperavam.

Bob Dylan e Johnny Cash cantam “The Girl from the north country” versão do disco “Nashville Skyline”

Ator circense e cristão

A década de 70 foi a que Dylan mais lançou discos, dez no total. Em 1974, voltou a fazer turnês, e fez sua estréia no cinema como coadjuvante em Pat Garrett & Billy the Kid. Para o filme, o cantor compôs “Knockin on Heavens Door” uma de suas músicas mais regravadas. No ano seguinte lançou seu disco de maior sucesso comercial “Blood On Tracks”, e em 76 “Desire” com musicas que parecem crônicas, como “Hurricane”.

Após os dois discos, ele decide reunir músicos e poetas e dar inicio a turnê “Rolling Thunder Revue”. A turnê funciona como um circo em que os shows são divididos ema tos de música e poesia. Indo novamente contra o que se esperava do cantor, ele escolhe apenas pequenos lugares como auditórios de universidades para receber os shows. Contudo, a mudança mais contraditória viria no final da década com o lançamento de “Slow Train Coming”. No álbum, Dylan manifesta abertamente sua conversão ao cristianismo, mesmo sendo de origem judaica.  

Mesmo criticado por seus fãs, ele manteve a fase cristã até 1982. Suas músicas gospel atingiram um novo público e atribuíram mais uma face ao cantor. Em “I contain multitudes” primeira faixa do próximo álbum, Dylan parece falar sobre sua varias personalidades “sou como Anne Frank, Indiana Jones e os Rolling Stones. Gosto de fast food e carros velozes. Eu não tenho desculpas a pedir. Eu contenho multidões”.

“Things have changed” trilha do filme “garotos incriveis” de 2001 e deu o Oscar a Dylan de melhor canção

O falso profeta

Com o fim da fase cristã, em 1984, Dylan retoma seu repertório com o lançamento do álbum “Infidels” com a música “Jokerman”. Consolidado em sua postura reclusa, passa a fazer o que bem entende de sua carreira. Como participar da canção “We Are The World” ou formar uma banda com George Harrison e Tom Petty. Sua personalidade onipresente e sua presença ausente atravessaram os anos 80, e adentrou os anos 90 onde grava um acústico MTV e ganha mais u m Grammy.     

O disco de 1997 “Time out of mind” vence na categoria melhor álbum de Folk contemporâneo. Três anos depois viria o Oscar pela música “Things have Changed” do filme “Garotos incríveis”. Em 2007, também no cinema, seis atores diferentes interpretaram Bob Dylan em seis momentos distintos no filme “Não estou lá”. No ano seguinte ele viria a ganhar o prêmio Pullitzer pelo seu impacto na música popular.

Nos últimos dez anos, apenas um disco de inéditas, “Tempest” em 2012. Neste meio tempo, ele gravou musicas de natal e covers de Frank Sinatra. Sempre indo na contramão, não compareceu a cerimônia de entrega do prêmio Nobel de literatura em 2016, apenas fez uma manifestação dias depois. Tudo que lhe é atribuído é negado seja o rotulo de profeta, ou porta voz de uma geração. O que faz parecer que Bob Dylan nunca existiu, embora sua carreira tenha aberto pontos de entrada para um publico cada vez mais diversificado.    

 Bob Dylan é um jogo de espelhos. Nas vésperas do seu próximo disco, seus fãs seguem pensando sobre o que e quem ele estaria falando em suas musicas. Como um profeta, faz da palavra sua arma. Mas rapidamente se desamarra das responsabilidades e cobranças. Como ele diz em “False Prophet”, o último single lançado do novo álbum: “Eu não sou um falso profeta, eu apenas sei o que eu sei” diz Dylan, sem nunca ter precisado explicar como ele sabe.  

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